quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Para compreendê-las melhor, as pobres estatísticas

Uns endeusam as estatísticas, outras as acusam de pura mentira. Como de hábito, os extremos estão errados (falou o extremista do meio-termo).

Sou fã de estatísticas, ao contrário de 93,7% das pessoas. Mas elas não são, nunca, a expressão nítida da verdade. Elas precisam de interpretação, como as profecias de anteontem, a borra de café para os crédulos, as linhas da vida na palma da mão.

A vantagem da estatística sobre os suportes esotéricos é que ela se baseia num levantamento factual exaustivo. Seu pior difamador admitirá que os números que ela mostra são “verdadeiros”, mas colocará tantas aspas nesse “verdadeiros” que concluirá que a estatística não serve para nada, “escondendo verdades maiores” — afirmação à qual eu mesmo acrescento algumas aspas.

Um estatístico que caçava patos atirou um metro para cima da ave na qual mirava, ao mesmo tempo em que seu colega atingia um metro abaixo desse alvo, o que os fez imediatamente sorrirem contentes: “Acertamos!”.

A piada é boa e o pato está vivo, mas a satisfação desses caçadores de araque é somente um exemplo do tipo de equívoco que se comete na interpretação de dados. Vamos agora matar um pato direito.

Marcão e Nenê são jogadores de meio-campo. A imprensa futebolística acompanha dez de seus jogos, faz as contas e publica que o Marcão erra em média 8 passes por jogo, enquanto o Nenê erra 15 passes por jogo. A conclusão é que o Nenê passa pior do que o Marcão.

O pato continua vivo. Um jornalista reproduz esses dois números mágicos, incontáveis blogs os copiam-e-colam e a torcida organizada quer a caveira do Nenê. Mas o pato ainda está vivo porque tais números, mesmo que sejam fiéis à verdade, mostram uma análise parcial da realidade. Afinal, alguém poderia dizer quantos passes cada um acertou?

Talvez o Nenê tenha acertado 20 passes em média, enquanto o Marcão acertou apenas três. Agora o pato está ficando chamuscado. O Nenê erra mais porque participa muito mais do jogo, errando passes mas também acertando muitos. Ele acerta 57% dos passes que realiza, enquanto o Marcão acerta 27% dos seus. Quem é melhor passador?

Bom, mas talvez também não seja bem assim. Pode ser que o Marcão acerte os mesmos 20 passes por jogo em média e, nesse caso, sua eficiência seja de 71%, maior do que a do Nenê. “Marcão é mesmo melhor”, conclui o jornalista.

E lá vai o pato grasnando incólume. A pergunta agora é: alguém poderia dizer como foi cada um desses passes?

Um levantamento mais claro talvez mostre que o Marcão dá seus passes para jogadores que estão atrás ou ao lado, enquanto Nenê, mais ousado, tenta mais vezes fazer a bola passar no meio da marcação adversária. Erra vários, como é de se esperar, porém quando acerta cria condições de gol de uma maneira que o Marcão jamais consegue.

É pena de pato para tudo o que é lado!

Isso significa que as tais estatísticas não valem nada? Não. Primeiro que analisar estatísticas sempre permite reflexões como esta, nos dão garfo e faca para devorar a realidade, fornecem palavras e números que nos livram da mística das impressões. E elas continuarão a funcionar por si mesmas, desde que recebam o tratamento adequado.

Por exemplo, um treinador pode considerar que, para um jogador como Marcão, que não cria situações de gol, o índice de passes correto deve ser, digamos, de pelo menos 70%, enquanto o Nenê pode acertar apenas 40% desde que ele crie uma média de três chances de gol por partida — e então uma estatística completará a outra.

Por isso, amigo, fique atento: se um desconhecido lhe oferecer números na rua, nunca aceite!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O acaso determina nossas vidas?

Este livro foi tão badalado por jornais e revistas que chegou a se esgotar na Livraria Cultura e eu precisei esperar 5 dias até a reposição de estoque para poder comprá-lo.

Apesar de estar fazendo tal sucesso, imaginei que o livro pudesse ser realmente bom. Entre créditos e débitos, deixo o saldo no azul. Há passagens incríveis e ideias que todas as pessoas deveriam conhecer e se esforçar para compreender.

A primeira delas é a demonstração de como fazemos julgamentos errados ao ignorarmos dados estatísticos. Com exemplos muito claros retirados dos esportes, das artes, dos negócios, etc., ele prova que, de um modo geral, não podemos analisar o desempenho de um profissional tendo por base somente os resultados que ele obteve num curto espaço de tempo.

Um bom profissional tende a conseguir melhores resultados ao longo do tempo, embora num período curto (um mês ou um ano) possa ter um desempenho ruim, inferior ao de um concorrente não tão bom que tenha tido mais sorte.

A prova da grande dificuldade das pessoas de entenderem probabilidades (e fazerem escolhas melhores) está no relato do famoso problema de Monty Hall. Eu não imaginava que esse paradoxo fosse tão largamente "contestado" por aqueles que não o compreendem bem.

Boa leitura, mas Mlodinow poderia ter diminuído o livro a menos da metade de seu tamanho, mantendo o essencial e talvez estruturando um pouco melhor.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O réu

Em 1984, numa manhã especialmente severa, a inspetora Ana Lídia recolheu-me à sala da direção junto com dois outros garotos do colégio. Havíamos nos atrasado alguns minutos no retorno do recreio para as salas de aula.

Não me recordo do nome do diretor, um senhor de bigode espesso, mas ele já nos esperava, sentado à sua escrivaninha. Teria 50 anos então? Um menino de 11 não saberia precisar. Morreria alguns anos depois.

Tolerei o sermão com seriedade. Sempre tive um respeito militar pelo poder, mais propriamente pela experiência que os anos esculpem nas pessoas — embora isso não se estenda a uma mera submissão diante da autoridade.

O discurso deve ter durado cerca de cinco minutos. Foi entremeado de silêncios, que sempre podem ser a deixa ou uma nova pausa. Observava seu rosto, mantinha-se a tensão de que voltaria à carga. Não elevou a voz em nenhum momento, mas o sentido todo da repreensão parecia-me exceder bastante a natureza da falta.

Em certo momento, entendi que encerrara. Meus colegas estavam em silêncio, e o diretor não nomeou nenhum de nós em especial para iniciar as explicações. Certamente não percebi que seu último olhar calado, antes de nos mandar assinar o livro negro, era ainda sua tarefa de admoestação. Então comecei a falar.

A voz saiu branda, mas não fui capaz de proferir três palavras. O diretor interrompeu-me, agora sim zangado, instituindo que eu não tinha direito a réplica alguma. Ele parecia sinceramente surpreso por eu ter aberto a boca.

Fiquei paralisado pelo choque de me ver sem direito a defesa. Escutei quieto a prorrogação de impropérios que minha audácia lhe havia concedido. Os outros meninos talvez estivessem aliviados, agora à margem da repressão, sentindo-se menos culpados, menos perigosos.

A inspetora Ana Lídia, que presenciara tudo, demonstrou a meus olhos um certo remorso. Cumpriu burocraticamente a função de nos levar a assinar o temido livro negro.

Eu pensava que sentiria alguma solenidade no coração ao traçar meu nome após a famigerada lista de moleques que eu com muita justiça detestava. Pensava que sentiria uma intensa estranheza ao ser enfileirado com tantos indivíduos de fato reprováveis.

Mas a ditadura de quartinho do nosso diretor havia esfriado minha emoção. Na hora não entendi por quê, mas sei hoje muito bem que o lado “bom” da luta, o lado dos que sentenciavam os travessos, também tinha um vício talvez mais profundo.

Inscrevi o diretor no meu livro negro, esqueci seu nome e tornei-me apaixonado pela plena liberdade de defesa.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Questão de honra


Por que há tanta violência pessoal ("questão de honra") entre os sulistas dos Estados Unidos?

Porque seus antepassados, 300 anos antes, eram pastores de ovelhas na Grã-Bretanha.

A incrível explicação da "cultura da honra" está no livro Fora de série - Outliers, de Malcolm Gladwell.

Pequenas comunidades que viviam de agricultura tendiam a ser mais tranquilas porque sua riqueza - a plantação - não tinha como ser roubada.

O mesmo não ocorria nas comunidades de locais montanhosos e impróprios para a agricultura, que precisavam se dedicar ao pastoreio. Para não se mostrarem fracos, pondo em risco seus rebanhos, eles tinham que reagir duramente às menores provocações.

Essa cultura da honra foi transportada entre os imigrantes que foram para os EUA e assentaram nos estados do Sul do país. Segundo pesquisas de comportamento, é expressiva ainda hoje a diferença entre nortistas e sulistas no que se refere à atitude diante de provocação.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O entusiasmo


Certa vez dois casais de amigos peregrinavam pelos espantosos museus da Europa.

As duas mulheres flutuavam de óleo a óleo, ilustrando-se. Os homens, engenheiros convictos, já haviam extraído a primeira impressão de tudo e estavam enjoados com a sequência insuperável de madonnas com bambinos.

Uma hora andavam as mulheres bem apartadas dos maridos quando então os reencontraram, vendo-os adiante finalmente entretidos em uma das salas de pinturas.

Não era El Greco nem Rembrandt, mas um equipamento sofisticado que funcionava em um canto, próprio para manter a umidade e preservar as obras de arte.

Fulano e Beltrano podem achar que esta é uma história de bizarrice e cegueira. Para Sicrano — e para os personagens da história — o sentido é diferente. Feliz é quem encontra seu entretenimento no meio um mar de tédio. O entusiasmo espontâneo é a grande arma do homem na busca da felicidade.

E algo me diz que o tal aparelho seria a principal atração para Leonardo da Vinci, se ele ressuscitasse para visitar o museu...

domingo, 27 de setembro de 2009

A morte tem cura

O título é abusado e pode ter afastado os cautelosos (às vezes a polêmica é um negócio que entra pela culatra, entende?), porém o livro é intrigante, sim.

Algumas das "100 hipóteses médicas revolucionárias" são forçadas, mas é ótimo saber certas coisas, como o fato de os sociopatas serem um mal necessário ou de que as pessoas peludas desenvolvam menos câncer.

Você verá ainda que o humor aumenta a sobrevivência - revelação que, obviamente, serve apenas para aumentar a preocupação dos mal-humorados.

Esta é mais uma recomendação minha do tipo: vá à livraria e dê uma olhada antes de comprar.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Uma excepcional capa de livro

O livro se chama O imitador de vozes.
O autor é Thomas Bernhard.
O conteúdo são dezenas de contos bem pequenos.

Agora olhe direito a capa.

Não é a primeira capa nesse estilo que a Companhia das Letras faz para obra de Thomas Bernhard, mas me parece que, neste caso, ficou mais redondo. À editora, parabéns não apenas pela capa, mas por lançar no Brasil algumas obras de Bernhard, de quem li algumas boas peças em edições portuguesas.

Mas este, afinal, vale a pena? De pé na livraria, li alguns contos, gostei e vou comprar. Por que não comprei ainda? Porque detesto aquela livraria...