terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A invenção de Morel

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O curto romance A invenção de Morel, lançado por Adolfo Bioy Casares em 1940, pode ser lido em cerca de duas horas. Eu não me levantei até completá-lo.

O início é misterioso e, em pequena medida, perturbador, mas aos poucos nossa imaginação começa a focar apropriadamente naqueles eventos e na mentalidade do narrador e logo já podemos enxergar esse protagonista e acompanhá-lo em suas andanças pela ilha isolada aonde foi se esconder da polícia.

Concordo com Carpeaux — autor de artigo que ilustra esta nova edição como posfácio — que enquadrar o romance como “ficção científica” pode confundir sua apreciação. Apesar de inspirado em A ilha do Dr. Moreau, de H.G. Wells (que não li), Morel apresenta-se como uma obra mais complexa, em que o elemento científico é subjacente, enquanto o mistério, as peripécias e até seus aspectos psicológicos são pluralmente ressaltados.

A prosa de Casares tenta ser clara com suas frases curtas, mas persistentemente evitando a sensação de obviedade. Essa preocupação não o poupa de certas paragrafações truncadas e da marcante semelhança com o estilo do conterrâneo e amigo Jorge Luis Borges.

Borges assina o prefácio original, também presente nesta edição da Cosac&Naify. Nele, afirma que “discutiu os pormenores” com o autor e a considera “perfeita”. Com sua erudição virtualmente infinita, Borges ainda assim sempre cultivou os superlativos. Mas estaria errado em sua avaliação? Eu tenho desistido dessa espécie de veleidade. A perfeição talvez só exista na cabeça de um lunático como Morel.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

EXPERIÊNCIAS COM ANIMAIS... trecho de uma peça

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Há alguns anos, quando a Eloisa Elena me chamou para escrever sua próxima peça, fiquei muito contente pela oportunidade de trabalhar com ela, com o grande Fernando Alves Pinto e com a querida Yara Novaes (que hoje foi indicada para o APCA de melhor atriz pela peça "Contrações"!).

A peça tem se apresentado em muitos teatros e festivais, e voltou recentemente para uma temporada de um mês em São Paulo, em outubro.

Ao revê-la depois de cerca de dois anos, achei curioso ter escrito o trecho abaixo, que veio a calhar para a época da reapresentação.

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"Hoje em dia, tem gente que acha muita crueldade as experiências feitas com animais. Porque injetam neles substâncias tóxicas, ou realizam amputações brutais.

A mais dura experiência feita com um animal, porém, não provocou nenhuma mágoa física. O pesquisador pegou um casal de pombos, pássaros muito leais e que vivem bem a dois, e os submeteu a separações. A separações cada vez maiores.

O macho, privado por alguns dias de sua fêmea, passou a cortejar uma pomba de outra espécie. Depois de semanas sozinho, sua atenção se voltou para uma triste e imóvel pomba empalhada. Ampliada sua solidão, ele passou a se interessar por uma massa disforme de trapos secos.

No último estágio da desolação, o instinto do pombo abandonado se voltou para o vazio, para a parede plana e indiferente da gaiola."

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Novo Campeão Mundial de Xadrez

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O mundo tem um novo Campeão Mundial de Xadrez, mas os portais brasileiros não deram nada ainda. Nem no finalzinho da página.

O Xadrez é um jogo cada vez mais profissional e disseminado. O Brasil é um dos países que mais crescem em praticantes.

O jogo já dominou as manchetes dos jornais em certos períodos, como quando o americano Bobby Fischer desafiava a hegemonia soviética, quando o jovem Kasparov derrotava Karpov nos tempos da Perestroika ou quando o mesmo Kasparov foi derrotado pelo computador Deep Blue.

Nem estou falando pra destacar a notícia no portal, como se fosse um evento do futebol ou a disputa de um reality show. Mas pelo menos poderia ter uma chamadinha discreta, no lugar de um dos títulos, por exemplo:

    • "Empresário paulista come 48 pedaços de pizza e acaba expulso de rodízio." (Globo.com)
    • "Farei de tudo, além da gostosa, diz Ellen Roche." (UOL)
    • "Mulheres ingerem algodão embebido em suco para emagrecer." (Terra)

Magnus Carlsen, norueguês de 22 anos, é a 20.a pessoa a chegar a esse título em cerca de 150 anos de tradição. Apesar de jovem, não surpreendeu quem acompanha o Xadrez: ele começou sua notoriedade já aos 13 anos, quando conquistou o título de Grande Mestre, e detém desde 2010 o maior rating FIDE da modalidade.

O match contra o campeão anterior, o indiano Viswanathan Anand, deveria durar 12 partidas, mas foi encerrado após a 10.a, com a vitória garantida por 6,5 – 3,5. Carlsen venceu 3 partidas, empatou 7 e não perdeu nenhuma.

Por quanto tempo ele manterá o título?

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Qual o seu código Pantone?

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Achei bacana essa exposição no Sesc Consolação, em São Paulo. Que, aliás, foi expandida para grandes painéis alinhados na Praça Rotary, que fica quase do lado.

A fotógrafa Angélica Dass faz imagens das pessoas e usa a cor de um quadrado de 11 x 11 pixels do rosto delas para compor o plano de fundo. Embaixo, especifica a escala Pantone daquela cor.

Assim, mostra que somos de numerosíssimas cores diferentes. A escala Pantone é industrial e universal: portanto, objetiva.

Angélica Dass não seleciona quem será fotografado. Qualquer um pode se oferecer. É um trabalho em andamento, limitado apenas ao número de habitantes do planeta.

E aí? Você só gosta de pessoas do seu mesmo código Pantone?

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Sobre o fim da vida

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Ler Por um fio, de Drauzio Varella, foi para mim um exercício de coragem.

Praticamente todos já tiveram a experiência sofrida de acompanhar um familiar ou amigo na jornada derradeira até o fim. Encarar um livro que promete esmiuçar esses momentos tão difíceis, do ponto de vista de um médico cheio de histórias, era algo que me desafiava.

Comprei o livro com séria dúvida de se chegaria até o final.

Mas a obra é excelente e consegue manter nossa esperança ao alternar histórias duras com inesperadas salvações, lições sobre a vida e relatos tocantes sobre como cada paciente reage e cada família se comporta diante da prolongada agonia.

O texto mostra uma autoria com consciência estrutural e uma linguagem bastante precisa e harmônica. A leitura torna-se sempre agradável.

Eu recomendo este livro para todas as pessoas. Não imagino quem não possa aprender algo com ele.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

I am the one who knocks


sábado, 22 de junho de 2013

Duas semanas de Democracia


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O pronunciamento da presidente Dilma Rousseff concluiu na minha visão um arco dos acontecimentos que se iniciaram há cerca de duas semanas com as primeiras manifestações pelas ruas. Não acabou o espetáculo: foi o fim do primeiro ato, que nos dá chance para refletir antes das próximas cenas.

Entre um delírio e outro, sabemos que continuamos numa democracia, e que a chefe do Executivo nacional foi eleita com maioria de votos e está cumprindo seu mandato conforme a legalidade. Considerar a deposição de Dilma Rousseff seria uma postura golpista que apenas atrasaria a maturidade de nossa democracia, que tem muito a crescer e não pode retornar à gangorra de ditaduras que foi o século XX.

Assim, se discordamos de alguma política da presidente, temos duas opções: esperar as próximas eleições para retirá-la do posto ou nos manifestarmos ostensivamente.

Desta vez, as pessoas resolveram se manifestar. No meio de tantos debates controversos sobre a qualidade de seu governo — os articulistas políticos estão por aí com suas alegações favoráveis ou contrárias às realizações da presidente —, o povo vive o escândalo diário de hospitais e escolas que não parecem refletir a tempo a relativa prosperidade econômica e a queda do desemprego no Brasil. Coincidência ou não, justamente neste momento começou a Copa das Confederações, com o lançamento de estádios bilionários e de alto padrão, justificando os cartazes de “Queremos hospitais padrão Fifa”.

E, neste ponto, a resposta da presidente foi adequada: o Executivo está ouvindo. O Executivo compreendeu que precisa realizar atitudes mais rápidas e expressivas em relação aos clamores mais fundamentais. Demonstrou que entende que as manifestações continuarão se essas atitudes não forem tomadas — e chamará governadores e prefeitos, porque as responsabilidades são mais compartilhadas do que supõem aqueles que veem no chefe de Estado um monarca culpado por tudo.

Esse é o ponto mais positivo: na minha visão, isso é simplesmente a democracia funcionando. Em teoria, a democracia representativa é o sistema mais prático: elegemos as pessoas que, acreditamos, tomarão as providências que desejamos.

Em alguns momentos, porém, isso não parece funcionar totalmente bem. Começamos a perder a confiança mesmo nos nomes em que chegamos a acreditar. É então que somente uma massa pode ter alguma voz.

O precursor dessas manifestações foi o Movimento Passe Livre de São Paulo, que, como no provérbio antigo, atirou no que viu e acertou o que não viu. Considerada isoladamente, a demanda pela revogação do aumento das passagens na capital paulista não era consistente. O prefeito Haddad afirmou que sua promessa de campanha havia sido aumentar o preço da passagem abaixo da inflação, e isso ele cumpriu.

A diferença de 20 centavos era tão reconhecidamente irrisória que, com a ampliação dos manifestos, tornou-se onipresente a alegação de que “não é só por 20 centavos”.

A proposta inicial de que os protestos fossem apartidários tinha sentido. A presidente do País e o prefeito de São Paulo são do PT, mas o governador Geraldo Alckmin, que controla o metrô, é do PSDB, e uma multiplicidade de partidos está à frente dos estados e municípios.

Não à toa, Alckmin e Haddad apareceram juntos, numa ação portanto apartidária, para anunciar que voltaram atrás no aumento do metrô e do ônibus. Uma vitória política do Movimento Passe Livre, que os dois procuraram enfatizar publicamente que se tratava de uma derrota técnica da gestão, pois teriam de retirar verbas de outros investimentos para subsidiar o transporte. Provavelmente estão corretos, porém isso mostra como a democracia é forte e que os governantes podem acabar sendo compelidos a cometer pequenos erros se não se preocupam previamente em providenciar grandes acertos.

O crescimento das manifestações estava num processo inercial incontrolável que não foi contido pela redução do valor das passagens, ocorrida em muitos outros lugares além de São Paulo. E foi nesse momento que o apartidarismo começou a incomodar os manifestantes mais politizados. Houve o susto de que ativistas antidemocráticos pudessem sequestrar a pauta de reivindicações. Aconteceram tensões internas nas passeatas, com casos de agressões a pessoas trajando vermelho.

Não se pode chegar ao ponto de haver um antipartidarismo, pois isso é um atentado à democracia. Por isso o próprio Movimento Passe Livre anunciou sua retirada das manifestações.

Algumas más impressões causadas por Dilma Rousseff em seu pronunciamento parecem se dever a determinadas expectativas pessoais dos ouvintes. A presidente leu um longo texto, de forma bastante mecânica. Na seriedade da situação, porém, não se poderia esperar que ela falasse de improviso. E, com os ânimos tão exaltados, é claro que ela procuraria se expressar com serenidade.

Estava muito cansada, alguns notaram abatimento, mas certamente ela não animou aqueles que esperavam que ela acusasse o “golpe”…

A crítica mais consistente é sobre o que ela falou da Copa do Mundo. Afirmou que o dinheiro gasto nas arenas é “financiamento que será devidamente pago pelas empresas e governos”. Se era para dizer isso, acredito que precisaria ter desenvolvido melhor, pois não é desta maneira que o tema chegou à população. Além disso, se governos estaduais terão de pagar, isso ainda é dinheiro público.

Seja como for, a realização da Copa do Mundo é uma obrigação contratual da qual o País não pode mais se esquivar — teria sido melhor ela dizer isso do que nos lembrar de que somos pentacampeões. Atrapalhar a Copa do Mundo ou mesmo a Copa das Confederações já em andamento causará mais prejuízos. O dinheiro dos estádios já foi gasto. Uma demanda racional agora é exigir transparência total sobre os custos e fazer o possível para que o evento traga todos os benefícios possíveis, mesmo que a essa altura eles se revelem abaixo do investimento feito.

Alguns identificaram cinismo na afirmação da presidente de que pretende receber as lideranças dos protestos pacíficos. Afinal, quem seriam? Mas na verdade existem líderes relevantes de organizações da sociedade e, além disso, pode-se entender que Dilma Rousseff está sensível até a manifestações que ainda não ocorreram.

As redes sociais estão tendo um papel definitivamente positivo no processo. Apesar de serem uma babel de anseios e ódios, elas permitem tanta interação entre tantos atores que mesmo uma manifestação inerentemente confusa que emana de tantas multidões acaba se tornando mais rapidamente decodificável. É uma ferramenta da democracia que chegou para ficar, para ser a espada de morte dos que tentam ser donos da verdade.

Ao contrário da fera da internet com suas mil opiniões, a grande mídia e suas agendas estanques ficaram à deriva no período, demonstrando menos controle da situação do que se supõe. Jabor falou e depois desfalou. A capa da Veja foi surpreendentemente neutra. O Cidade Alerta elogiou as manifestações, mas no dia seguinte um carro da Record foi queimado. Depois de serem hostilizados, repórteres da Globo saíram às ruas sem o cubo de identificação da emissora, que chegou a cancelar capítulos de novelas para mostrar os protestos. Como se pode esperar de uma multidão que agregou tantas forças, ela foi imprevisível e, portanto, exigiu tato para ser mencionada. Se isso não for, por si só, um fenômeno diferente e bastante positivo, então temos de aproveitar a oportunidade para fazê-lo assim.

Ficaremos agora, como cidadãos cada vez mais conectados, aguardando que as medidas anunciadas pela presidente se realizem nas próximas semanas. Ela fez promessas. Vamos aguardar o Plano Nacional de Mobilidade Urbana. Vamos observar suas reuniões com governadores e prefeitos e esperar pelos resultados do “grande pacto em torno da melhoria dos serviços públicos”. Vamos verificar se, afinal, haverá um sentido na expressão “reforma política”.

O povo deu as cartas nesse primeiro ato. Espero que os governantes abracem o protagonismo no segundo, que está para começar, e ajam como mocinhos da história. Senão o povo volta para o terceiro, e com menos paciência.