sexta-feira, 23 de maio de 2008

Indiana Jones e o Reino dos Trintões


Pré-estréia. Cerca de 100 pessoas no cinema, todas entre 30 e 40 anos. Não conto os filhos que alguns desses levaram, provavelmente com a chamada "vejam como nos divertíamos nos anos 80".

Esta mensagem conta o filme. Se não o viu, pare por aqui. E assista!

Os caçadores da arca perdida e Indiana Jones e o reino da perdição eu assisti na TV, lá por 1985, aos 12 anos. No cinema vi Indiana Jones e a última cruzada, em 1989, com remotos 16 anos.

A primeira coisa que é necessário lembrar, quando se fala de filmes de ação, é que Os caçadores da arca perdida, de 1981, é um divisor de águas absoluto. Tentem assistir ao King Kong que foi feito poucos anos antes (1976), com Jeff Bridges e Jessica Lange. Parece filme do Bergman.

Indiana Jones é um culto professor universitário. Mas suas histórias não são realistas. Suas aventuras são fantasia baseada em aspectos misteriosos da história da humanidade. A arca da aliança do primeiro, os cultos de sacrifício do segundo, o cálice sagrado do terceiro e os desenhos de Nazca do quarto são pontos de partida para peripécias em que um homem normal salta de avião em movimento com bote inflável, arrasta-se debaixo de um caminhão veloz, corre de tiros que nunca o atingem ou salva-se de uma explosão nuclear dentro de uma geladeira.

Como cinéfilo eclético, que cultua filmes como os de Rohmer, Kubrick, De Sica ou Buñuel, revi diversas vezes os três primeiros Indiana Jones, em busca de divertimento de muito bom gosto. Porém, aos 35 anos, é difícil encarar um filme novo com o mesmo espírito. A sensação é a de que o filme é tão legal quanto os anteriores — nós é que crescemos.

Por exemplo, ele parece um tanto curto. Mas é tão longo quanto os demais. Parece ter menos humor — mas o terceiro é que foi particularmente engraçado. Parece se fixar demais na ação, porém a ação tem certamente menos importância que no segundo.

Outro aspecto que dificulta a apreciação de um fã trintão é que as imagens dos três filmes anteriores já ficaram consolidadas na mente, como relíquias de nossa experiência: a pedra que rola na direção de Indy, a corrida para passar pela porta de pedra que vai se fechando (e o chapéu que é apanhado no último instante), o poço repleto de cobras, as ruínas de Petra que escondem o Graal, a ponte "invisível" que deve ser atravessada... As novas imagens, vistas assim pela primeira vez, parecem fortuitas e desimportantes se tentamos compará-las com o imaginário estabelecido.

Aqueles que não perceberam isso optaram por desancar o filme, como um "crime contra a memória" da série dos anos 80. Acho que não se trata disso. Futuramente, em algum sábado triste, assistirei aos quatro em DVD, em seqüência. Tenho a impressão de que será divertido e fará este novo filme se encaixar melhor entre seus irmãos.

Os comentários irritados sobre o filme são reveladores do próprio equívoco. Criticam a improbabilidade de determinadas cenas, em especial a explosão nuclear e as quedas na catarata, esquecidos de tudo o que aconteceu nas três outras aventuras. A irritação com os alienígenas do final é ainda pior: trata-se somente de mais um tema surpreendente e inacreditável, como a abertura da arca no primeiro, o coração arrancado no segundo ou o encontro do cálice no terceiro. Faz parte da brincadeira da série a ocorrência de cenas que choquem nossas crenças comuns.

Aplaudo os realizadores do filme por resistirem à tentação de fazê-lo um poço de referências. Foi tudo bastante suave, pouco explícito e sem pieguices. A última cena, por exemplo: o chapéu cai na mão de Mutt, que se prepara para colocá-lo. O espectador atual logo pensa que é uma cena para apresentar um "novo Indiana Jones". No último instante, porém, o verdadeiro Indiana toma-lhe o chapéu. Depois dessa cena tão "metalingüística", não entendo por que as pessoas simplesmente não relaxaram...

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