segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Vivemos no momento menos violento da História

Steven-Pinker-007 
A foto acima não é de um cantor de bolero.

Se você, apesar de todas as advertências, insiste em ler a revista Veja, então não deixe de apreciar a entrevista com o excelente escritor canadense Steven Pinker.

Professor de psicologia em Harvard, é autor de Como a mente funciona, que chegou a ser considerada a obra mais importante da década de 1990 e para mim foi realmente uma leitura preciosa.

Está lançando um livro que mostra como estamos vivendo na época menos violenta da História. Uma tese que eu sempre defendia intuitivamente, mas que ele pesquisou para apresentar de forma sustentada. Certamente lerei.

Na entrevista, ele explica por que muita gente pensa de forma contrária (achando que a violência apenas aumenta). Basicamente, trata-se de nossa memória em conluio com nossas emoções.

O importante é que o levantamento de fatos mostra que, apesar de ainda existir muita violência hoje (o que é óbvio), ela é menor do que em qualquer outro período dos últimos 5 mil anos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O que você quer saber do disco da Marisa?

141473_Ampliada

Acompanho Marisa Monte desde sempre, não tardei a ouvir seu novo disco e vir aqui palpitar sobre.

Vá ao site oficial você também e ouça tudo sem complicação, veja as letras e saiba tudo o que você quer saber.

O QUE VOCÊ QUER SABER DE VERDADE é um bom disco, com algumas canções excelentes e outras nem tanto. Você vai encontrar uma sonoridade similar à dos discos anteriores — os detratores dirão que ela “está se repetindo”, mas eu não concordarei exatamente. Para mim, Marisa é um elo com a boa música popular tradicional, que vale a pena conservar. Não tem riscos nem arrojos, mas traz sempre novas canções agradáveis para ouvirmos.

Em seu benefício, destaque-se a versatilidade. Parece que cada música tem um ritmo diferente: é samba, é valsa, é bolero, é baião, é tango, é foxtrote e outros cujos nomes desconheço.

Mas são todas sobre amor, todas com um toque de ingenuidade — os detratores dirão “brega”. Algumas partes soam brega mesmo, soam até mesmo algo caipira bem antigo, mas isso não é novidade nela: “Amor I love you” já tem 11 anos e foi seu “hit” mais criticado por breguice.

Já estou fazendo concessões demais ao malditos detratores. Vamos de vez conferir o disco. Tem uma bela capa, clipes bacanas que você encontra no YouTube e, o que mais interessa, música boa. Para os impacientes, ouçam direto as minhas preferidas!

1) Ainda bem (Marisa Monte / Arnaldo Antunes)
2) O que se quer (Rodrigo Amarante / Marisa Monte)
3) Descalço no parque (Jorge Benjor)
4) Depois (Arnaldo Antunes / Carlinhos Brown / Marisa Monte)
5) Verdade, uma ilusão (Carlinhos Brown/A. Antunes/Marisa Monte)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O show de Truman — “túnel do tempo”

18459084.jpg

Atualizações neste meu blog têm uma periodicidade larga — e tornou-se ainda mais demorada pelo fato de eu ter me mudado recentemente, o que significa muito tempo usado (não digo “perdido”) para encaixotamento e rearrumações.

A vantagem desse processo, além de jogar uma tonelada de tralha fora, é poder reencontrar algumas coisas do passado.

Há 12 anos escrevi sobre o filme Show de Truman e enviei para amigos e conhecidos por e-mail. Republico o texto aqui. O que me agrada nele é a reflexão sobre o “determinismo”, tema que tem me mobilizado bastante ao escrever, nesses anos todos.

TRUMAN SHOW
17/maio/1999

O show de Truman, filme dirigido por Peter Weir, será lançado brevemente em vídeo. Não o mandarei vê-lo (se não o viu) — afinal, não mando em ninguém. Ressalvo o caráter standard de sua produção, afora ainda algumas inconsistências mais brutais (a esposa como verdadeira prostituta full time e a tentativa de Christof de convencer Truman a voltar para o mundo no qual ele não acreditaria mais e em que, por isso, a novela não seria mais possível). Mas aludo a seu conteúdo, ou ao que se pode refletir a partir de seu enredo.

Truman é o símbolo do homem em um mundo determinista — problema metafísico ainda aberto. O filósofo Boécio defendeu com garra o livre-arbítrio: tentou mostrar que a presciência dos fatos futuros não é causa dos mesmos fatos, rechaçando o determinismo baseado no argumento de que, uma vez que Deus conhece o futuro, conseqüentemente ele seria predeterminado. Spinoza, por sua vez, considera Deus algo muito diferente ("é a totalidade do Universo") e diz que o livre-arbítrio é apenas uma ilusão dos homens, que não conhecem a real causa de seus atos. No filme, Truman foi colocado num ambiente determinista artificial. E devemos perceber que, se o mundo natural é determinista, vivemos como Truman. E, como Truman, sem saber disso.

Mas Truman desconfia de algo e passa a investigar. O remoto observador que um dia notou a circularidade no movimento dos astros previu um eclipse e pode ter julgado que, por inevitável, era um evento determinado. Truman notou, em torno de seu quarteirão, um movimento regular de fuscas e entregadores de flores. Mas ele — como ocorreria a muitos de nós — abomina a situação e quer salvar-se do determinismo. Como no filme esse ambiente é artificial, sabemos que ele tem uma chance, em especial por sua louca vontade de ir a Fiji.

Truman realmente foge do determinismo? Imagine o filme “Show de Truman II”, em que o espectador venha perceber que, ao sair da verdadeira “cidade cenográfica” em que vivia, Truman caísse, não no “mundo real”, mas numa segunda “cidade cenográfica” que englobasse a primeira, imensamente maior, onde Truman se creria de vontade livre, mas na qual a novela teria sua continuação. Não precisamos de “Truman II”. Poderíamos imaginar infinitas “cidades cenográficas”, e Truman não teria tempo — e, num momento, forças — para continuar escapando delas, como um “herói do livre-arbítrio”. É o que acontece conosco: não podemos romper os limites da física e da metafísica para saber o que se passa fora da nossa “cidade cenográfica” e como esse “exterior” interfere em nossos destinos. Ainda que o roteirista Andrew Niccol não tenha tido tal “intenção”, tanto é certo que o filme diz isso, que um determinista convicto acharia muita graça da alegria da platéia ao final do filme.

Na filosofia, a polêmica entre determinismo e livre-arbítrio, bastante antiga, é ainda menos antiga que promissora. O filme, que pretendeu tão-somente divertir alguns milhões de cérebros (mais os descansando que os espicaçando, afirme-se), levantou a questão, lá no alto, bola de vôlei acima da rede — quem, porém, poderá cortá-la?

Recomenda o filme o fato fugaz de não ter sido agraciado com aquela estatueta pífia.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Rotação

relogio

Ele espalhou, nas paredes de sua casa, 48 relógios.

Apenas um marca a hora certa. Um está 15 minutos atrasado. Outro, 30. Outro, 45. O último está, por fim, 15 minutos adiantado.

Ele sabe as horas olhando para qualquer um deles. Explica que faz isso para manter desperto o próprio raciocínio analítico.

Há fórmulas que ele emprega para saber as horas, de acordo com a posição do relógio na parede e com a proximidade de outros relógios.

Ele também se sente confortável com a multiplicidade de horários de que dispõe. Ao acordar, pensa que gostaria que fosse a hora tal — então passa a ordenar-se, naquele dia, pelo relógio que está marcando o horário desejado. Podendo mudar de relógio, se isso lhe parecer conveniente, a qualquer hora — de qualquer relógio.

Rapidamente ele se esquece do passado. Do futuro, desdenha. Vive exclusivamente no presente, que ele distendeu como borracha, para sonhar-se imperecível.

domingo, 31 de julho de 2011

Dilma Rousseff é a nossa…?

Dilma-Rousseff-foto-site-oficial

Engraçado como a briga "presidente x presidenta" se politizou.

Ano passado, ainda no meio da campanha eleitoral e quando nada se falava sobre esse assunto, cheguei a tuitar dizendo que, gramaticalmente, são ambas consideradas corretas.

Mas como Dilma adotou a forma “presidenta”, provavelmente com o intuito (político) de reforçar a conquista de uma mulher, usar essa forma agora soa como fazer uma concessão a ela e a seu partido.

Por isso, alguns comentaristas não respiraram duas vezes para elaborarem justificativas condenando o feminino presidencial. Pois, quanto mais gente imitasse a escolha da petista, maior pareceria ser o apoio a todo o seu governo.

As explicações vão do técnico ao picaresco. Basicamente, funda-se em comparar “presidente” com outras palavras de origem latina equivalente, como “gerente”, “adolescente” ou “parente”.

O artifício zombeteiro é dar o passo de transformar essas palavras, falando sobre “gerentas” e “adolescentas”. O objetivo retórico é apelar para um senso de ridículo do ouvinte: se “adolescenta” é absurdo, “presidenta” também deve ser.

O caso é que o idioma e sua gramática não funcionam assim. Um idioma não tem uma Constituição votada por autoridades, nem um inventor, nem um deus irrepreensível, nem um papa infalível. Ela é feita de usos. Não fosse assim (também apelando ao reductio ad absurdum), deveríamos estar todos falando latim. O português, flor ou não, é uma deturpação da língua de Cícero, que, ressuscitado hoje, consideraria a todos nós ignorantes bárbaros pelo nosso linguajar.

Pois o uso admite a possibilidade desse feminino. Veja “parenta”, por exemplo, que tem registro de uso no século XV (Houaiss) e até no século XIII (Antonio Geraldo da Cunha)! Veja “governanta”, que entrou no português por influência da língua francesa, mas que, na forma, é mais um exemplo.

O próprio termo “presidenta” é oferecido pelo Houaiss e pelo Aurélio desde muito antes de termos uma candidata ao cargo, e também o novo Volp já o havia incorporado na ocasião da recente reforma ortográfica.

Mas agora é tarde: o uso se politizou — o que também é algo natural na evolução da língua. Quem quiser agradar Dilma Rousseff a chamará de “presidenta”. Quem quiser evitar ser tomado como petista, usará “a presidente”. Pela gramática, os dois estão certos. Mas os exaltados estão errados quando tentam ridicularizar a parte contrária.

-------------------

Outros links sobre “presidenta”:

Sérgio Nogueira
Pasquale
Sérgio Rodrigues

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Beatles, evoluindo de estéreo para mono

images

Sempre que ouvia Beatles num bom aparelho, tinha a sensação de que o estéreo soava um pouco falso. Era em especial desagradável quando as múltiplas vozes ficavam mais evidentes. Atribuía isso à tecnologia incipiente da época.

Porém, quando li que a indústria beatlefonográfica havia lançado a obra da banda em remasterização mono, fiquei curioso. Pelo senso comum, parece uma “regressão”. E a pulga fica sempre atrás da orelha a cada enésimo lançamento para faturar nessa mina (merecidamente) inesgotável.

Foi aquela sensação antiga que me conduziu a pesquisar sobre o negócio. Então li neste ótimo post que o próprio George Martin, um dos diversos quintos beatles, teria dito há muito tempo que para conhecer de fato os Beatles seria necessário ouvir suas gravações em mono.

Ao ouvir algumas faixas em mono, percebi algo de fato um pouco mais “correto”. Não acompanho o relator na empolgação, mas a princípio o mono é mesmo preferível, não que tenha grandes virtudes, mas porque escapa daquele estéreo forçado.

Arriscando uma comparação: quando lançaram o sistema de áudio 5.1, ouvi gravações serem transformadas de estéreo para esse formato, e a sensação em muitos casos era a mesma, que estavam tentando encaixar algo consolidado para caber no novo brinquedinho, fazendo pedaços de som aparecerem estapafurdiamente numa caixa e em outra. Acho que o que ocorreu com os Beatles foi algo análogo: tudo era pensado para o mono, depois vinham técnicos pra jogar aquilo em estéreo, porque era a “onda”.

Então é assim: se você já gastou muitos cruzeiros ao adquirir todos os LPs em vinil dos Beatles… e depois muitos cruzados novos para recomprá-los nos primeiros laser discs, e depois muitos reais para pegar tudo de novo em CDs… está na hora de gastar um montão de dólares para ter as músicas em mono.

Ou não! Alegre

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Para quem se interessa por Política

tony

Você pode ou não acreditar no que Tony Blair diz, mas "Uma Jornada" é leitura muito importante pra quem se interessa por política. Neste livro, ele fala sobre o período em que esteve no governo do Reino Unido, como primeiro-ministro, de 1997 a 2007.

A mim, Blair pareceu bastante franco ao admitir os erros que cometeu. Claro que aquilo que ele considera seus grandes acertos também aparecem em grande número, mas, pelo menos, procura justificar tudo o que fez com muitos dados e argumentos. Dará trabalho contradizê-lo — contradizê-lo com honestidade, óbvio; pichar vaziamente, esporte mais popular que o futebol, é sempre moleza.

Seu relato é em especial elucidativo quando mostra os dilemas enfrentados por aquele que tem o poder de decisão e terá de assumir a responsabilidade por qualquer que seja o caminho tomado. Como diria Zico ou Baggio, "só perde o pênalti quem o bate".

Muito interessante, também, conhecer alguns detalhes de bastidores, seja de eventos, seja da monarquia, seja das reuniões privadas cheias de assuntos importantes. Para descobrirmos, passo a passo, como a política acontece.

Não se assuste se você se vir saltando páginas e páginas. Político gosta de lançar livros pesando 3 quilos e não ligam tanto para a concisão. E algumas passagens são enfadonhas e repetitivas mesmo. Mas, no geral, vale a pena ser lido.