sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O réu

Em 1984, numa manhã especialmente severa, a inspetora Ana Lídia recolheu-me à sala da direção junto com dois outros garotos do colégio. Havíamos nos atrasado alguns minutos no retorno do recreio para as salas de aula.

Não me recordo do nome do diretor, um senhor de bigode espesso, mas ele já nos esperava, sentado à sua escrivaninha. Teria 50 anos então? Um menino de 11 não saberia precisar. Morreria alguns anos depois.

Tolerei o sermão com seriedade. Sempre tive um respeito militar pelo poder, mais propriamente pela experiência que os anos esculpem nas pessoas — embora isso não se estenda a uma mera submissão diante da autoridade.

O discurso deve ter durado cerca de cinco minutos. Foi entremeado de silêncios, que sempre podem ser a deixa ou uma nova pausa. Observava seu rosto, mantinha-se a tensão de que voltaria à carga. Não elevou a voz em nenhum momento, mas o sentido todo da repreensão parecia-me exceder bastante a natureza da falta.

Em certo momento, entendi que encerrara. Meus colegas estavam em silêncio, e o diretor não nomeou nenhum de nós em especial para iniciar as explicações. Certamente não percebi que seu último olhar calado, antes de nos mandar assinar o livro negro, era ainda sua tarefa de admoestação. Então comecei a falar.

A voz saiu branda, mas não fui capaz de proferir três palavras. O diretor interrompeu-me, agora sim zangado, instituindo que eu não tinha direito a réplica alguma. Ele parecia sinceramente surpreso por eu ter aberto a boca.

Fiquei paralisado pelo choque de me ver sem direito a defesa. Escutei quieto a prorrogação de impropérios que minha audácia lhe havia concedido. Os outros meninos talvez estivessem aliviados, agora à margem da repressão, sentindo-se menos culpados, menos perigosos.

A inspetora Ana Lídia, que presenciara tudo, demonstrou a meus olhos um certo remorso. Cumpriu burocraticamente a função de nos levar a assinar o temido livro negro.

Eu pensava que sentiria alguma solenidade no coração ao traçar meu nome após a famigerada lista de moleques que eu com muita justiça detestava. Pensava que sentiria uma intensa estranheza ao ser enfileirado com tantos indivíduos de fato reprováveis.

Mas a ditadura de quartinho do nosso diretor havia esfriado minha emoção. Na hora não entendi por quê, mas sei hoje muito bem que o lado “bom” da luta, o lado dos que sentenciavam os travessos, também tinha um vício talvez mais profundo.

Inscrevi o diretor no meu livro negro, esqueci seu nome e tornei-me apaixonado pela plena liberdade de defesa.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Questão de honra


Por que há tanta violência pessoal ("questão de honra") entre os sulistas dos Estados Unidos?

Porque seus antepassados, 300 anos antes, eram pastores de ovelhas na Grã-Bretanha.

A incrível explicação da "cultura da honra" está no livro Fora de série - Outliers, de Malcolm Gladwell.

Pequenas comunidades que viviam de agricultura tendiam a ser mais tranquilas porque sua riqueza - a plantação - não tinha como ser roubada.

O mesmo não ocorria nas comunidades de locais montanhosos e impróprios para a agricultura, que precisavam se dedicar ao pastoreio. Para não se mostrarem fracos, pondo em risco seus rebanhos, eles tinham que reagir duramente às menores provocações.

Essa cultura da honra foi transportada entre os imigrantes que foram para os EUA e assentaram nos estados do Sul do país. Segundo pesquisas de comportamento, é expressiva ainda hoje a diferença entre nortistas e sulistas no que se refere à atitude diante de provocação.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O entusiasmo


Certa vez dois casais de amigos peregrinavam pelos espantosos museus da Europa.

As duas mulheres flutuavam de óleo a óleo, ilustrando-se. Os homens, engenheiros convictos, já haviam extraído a primeira impressão de tudo e estavam enjoados com a sequência insuperável de madonnas com bambinos.

Uma hora andavam as mulheres bem apartadas dos maridos quando então os reencontraram, vendo-os adiante finalmente entretidos em uma das salas de pinturas.

Não era El Greco nem Rembrandt, mas um equipamento sofisticado que funcionava em um canto, próprio para manter a umidade e preservar as obras de arte.

Fulano e Beltrano podem achar que esta é uma história de bizarrice e cegueira. Para Sicrano — e para os personagens da história — o sentido é diferente. Feliz é quem encontra seu entretenimento no meio um mar de tédio. O entusiasmo espontâneo é a grande arma do homem na busca da felicidade.

E algo me diz que o tal aparelho seria a principal atração para Leonardo da Vinci, se ele ressuscitasse para visitar o museu...

domingo, 27 de setembro de 2009

A morte tem cura

O título é abusado e pode ter afastado os cautelosos (às vezes a polêmica é um negócio que entra pela culatra, entende?), porém o livro é intrigante, sim.

Algumas das "100 hipóteses médicas revolucionárias" são forçadas, mas é ótimo saber certas coisas, como o fato de os sociopatas serem um mal necessário ou de que as pessoas peludas desenvolvam menos câncer.

Você verá ainda que o humor aumenta a sobrevivência - revelação que, obviamente, serve apenas para aumentar a preocupação dos mal-humorados.

Esta é mais uma recomendação minha do tipo: vá à livraria e dê uma olhada antes de comprar.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Uma excepcional capa de livro

O livro se chama O imitador de vozes.
O autor é Thomas Bernhard.
O conteúdo são dezenas de contos bem pequenos.

Agora olhe direito a capa.

Não é a primeira capa nesse estilo que a Companhia das Letras faz para obra de Thomas Bernhard, mas me parece que, neste caso, ficou mais redondo. À editora, parabéns não apenas pela capa, mas por lançar no Brasil algumas obras de Bernhard, de quem li algumas boas peças em edições portuguesas.

Mas este, afinal, vale a pena? De pé na livraria, li alguns contos, gostei e vou comprar. Por que não comprei ainda? Porque detesto aquela livraria...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Sobre o bárbaro atropelamento de um cidadão

Tento obedecer ao dever de não me revoltar. A notícia passa mais rápido que os homens. Hoje é mais um dia em que não vou me revoltar com o que existe de mau. Tomei meu remédio, comi meu chocolate e estou feliz. Lágrimas nos olhos não importam.

Meu dever é achar nele algo de bom, de purificado ou purificável. Senão amanhã deixarei de me calar. E, se eu não me calar, irei sofrer por todas as injustiças.

Não sei quem é ele. Matou um rapaz e a polícia o procura, é tudo que sei. Desculpem-me se, diante do fato, apenas me sento e escrevo. Mas não sei gritar como deveria. Só sei escrever brandamente, desculpem. Ele matou um rapaz e minhas palavras parecem um passeio no parque.

Mas como eu poderia gritar de revolta? Não fui eu que matou o rapaz. Foi ele. E não sei quem ele é, nem a polícia sabe. Sabe que estava num carro, que era noite, e que ele estava inconformado por terem arranhado o seu carro. Então ele condenou um rapaz na rua. Acelerou, atropelou, matou.

Mas não tenho também eu a minha fúria? Por exemplo, neste instante, será que eu não aceleraria para também matá-lo?

Escrever é um narcótico. Em alguns minutos, estarei clicando aqui e ali novamente, agora para as notícias boas, as fotos alegres, as cenas curiosas, a tela me trazendo melhores ares.

Não escrevam. Se querem ser cidadãos atuantes, pensem, mas não escrevam. Escrever é além de pensar: reorganiza o mundo e não há mais caos. A morte do jovem rapaz, que ia ser pai, dilui-se num panorama imenso, que inclui todas as tragédias. Se um acidente nos choca e nos entristece, por que a brutalidade deveria nos revoltar? — é o que pensa o pobre coitado que, a par de pensar, escreve. O que é um assassino imbecil senão um acidente, uma fração da realidade, um títere do caos?

Ele próprio, ao recordar a noite embriagado, ao ler também sobre a morte que causou, irá esquecer? Mas estamos em 2009: é tarde para outro romance sobre culpa e autocomiseração. É tarde também para um romance da indiferença: a história mais antiga é do irmão que matou o irmão e se regozijou.

Este é o resultado de escrever. Tudo é velho e nada mais é chocante. Ou melhor: “não há nada de novo”, como disse alguém há três mil anos. O cidadão melhor que eu, aquele que pensou e não escreveu, diria que “perdemos o poder de nos indignar”. Não perdemos. A humanidade se alfabetizou. Assassinos leem e retiram licença para dirigir. Alfabetizados, escrevemos e, escrevendo, sabemos: tinha que ser assim. “Estava escrito.”

Não. Estará escrito. E então aceitaremos.

sábado, 11 de julho de 2009

Twitter

Se a pessoa apenas diz "estou almoçando"... "estou parado no trânsito"... "que tédio hoje"... bem, o Twitter merece as ridicularizações que sofre, como nesta divertida animaçãozinha:



Minha visão começou a mudar quando vi os resultados de uma pesquisa sobre o uso do Twitter no Brasil:



O interessante é que agora as pessoas que SÃO notícia estão usando, pelo Twitter, a prerrogativa de anunciar os fatos mais importantes de que tomam parte, dando "furos" nos jornalistas. O técnico Wanderley Luxemburgo, por exemplo, informou pelo Twitter que foi demitido do Palmeiras antes de qualquer veículo da internet.

Mesmo quem não é notícia e não está preocupado com isso pode ser bem agradável de seguir. Olhem essas tuitadas:

"Não é que o crime não compensa. É que, quando compensa, muda de nome."
http://twitter.com/millorfernandes

"#flip2009 Gay Talese: no jornalismo, nunca me interessei por noticias mas pelo comportamento humano e suas complexidades."
http://twitter.com/marcelotas

"falando em cinema, semana passada vi um filme brasileiro que não tinha o Selton Mello...pensei até que tinha entrado na sala errada."
http://twitter.com/themansfield

Notícias, informações rápidas sobre os amigos, reflexões breves, pontos de vista diferentes... vale a pena brincar um pouco. Estou lá também:

http://twitter.com/paulosantoro