domingo, 2 de janeiro de 2011

Reparação (sem o desejo)


reparacao_ian_mcewan


Fazia tempo que Reparação estava na minha estante, à espera de leitura. Nem a bem-sucedida adaptação para o cinema, de 2007, me levou a enfrentá-lo — aliás, também não vi o filme, que o incansável despreparo e mau gosto dos marketeiros nacionais chamou de Desejo e reparação. Foi necessário que a amiga Heloísa Schiavo twitasse maravilhas para que eu transformasse a desconfiança em curiosidade.

São 450 páginas, afinal. Coisa um tanto século 19 para meu gosto — e nem o inigualável Machado de Assis achava de preencher tantas laudas, ele que era conciso e brilhante em cada linha.

Mas gostei muito!

De forma um tanto intrigante, o romance me lembrou o filme Adaptação, do roteirista Charlie Kaufman. O narrador do romance, explorando o pensamento dos personagens, desenvolve uma teoria estética da literatura que ironiza seus próprios recursos: num certo ponto, por exemplo, a aprendiz de escritora Briony “sabe” que não interessa mais o enredo, e sim o “fluxo de pensamento”; porém a história em Reparação é fascinante, movimentada e atraente.

A construção do autor é eclética. É intensa sua variedade temática: a vida por um lado plácida de uma família de classe alta no campo; os transtornos da relação entre parentes; o sangue enlameado da guerra, o terror massacrante das enfermarias com seus feridos; a cultura e a religião, a política e a sociedade, a literatura e a estética. Um passeio que nos preenche de recordações.

"Alguém entrou." Robbie abriu os olhos. Estava numa biblioteca, numa casa, imersa num silêncio completo. Trajava seu melhor terno. Sim, tudo lhe voltou à mente com relativa facilidade. Forçou a vista, olhando por cima do ombro de Cecilia, e viu apenas a escrivaninha fracamente iluminada, tal como antes, como se a tivesse visto num sonho. De onde estavam, naquele canto, não era possível ver a porta. Mas não se ouvia nada, absolutamente nada. Ela se enganara, ele desejava desesperadamente que ela estivesse enganada; estava, sim. Virou-se para ela e ia dizer-lhe isso quando sentiu um aperto mais forte em seu braço, que o fez olhar para trás mais uma vez. Briony lentamente entrou em seu campo de visão, parou ao lado da escrivaninha e os viu. Ficou parada, apatetada, olhando para eles, os braços caídos ao longo do corpo, como um pistoleiro numa cena de duelo num western. Naquele instante de desencantamento ele se deu conta de que jamais odiara uma pessoa até aquele momento. Era um sentimento tão puro quanto o amor, porém desapaixonado e friamente racional. Não havia nada de pessoal nele, pois teria odiado qualquer pessoa que entrasse. Estavam servindo bebidas na sala de estar e no terraço, e era lá que Briony deveria estar — com a mãe, o irmão que ela adorava e os priminhos. Não havia nenhum motivo razoável para ela estar na biblioteca, senão o propósito de encontrá-lo e negar-lhe o que era seu. Ele entendeu esse fato com clareza, sabia como havia acontecido: ela abrira um envelope fechado, lera seu bilhete e ficara enojada, e de algum modo obscuro sentira-se traída. Viera procurando pela irmã — sem dúvida movida por uma idéia grandiosa de protegê-la, ou de admoestá-la, e ouvira um ruído vindo de dentro da biblioteca fechada. Impelida pela profundeza de sua própria ignorância, imaginação pueril e retidão de menina, entrara para interrompê-lo. E nem foi preciso fazer nada — espontaneamente, eles dois já haviam se separado e virado cada um para um lado, e agora ajeitavam discretamente suas roupas. Terminara.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Desconotações - 3

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domingo, 7 de novembro de 2010

Aeromoça


Aeromoça é uma super-heroína dos quadrinhos!

Uma moça que voa. Que voa por si mesma, auto-voante, uma self fly girl. Bonita, não salva ônibus pendurados em despenhadeiros porque ônibus são pesados demais: a Aeromoça apenas voa, é fraquinha como as mulheres fraquinhas.

A Aeromoça salva os paraquedistas cujos equipamentos tiveram a bondade de não funcionar.

A Aeromoça, com sua capa (de chuva), ouviu um chamado de socorro. O paraquedas do homem desesperado estava aberto, mas um nó prendia os cordames. A Aeromoça foi ver do que se tratava e não era simplesmente um nó: era um belo lacinho.

— Sua morte foi tramada — advertiu a voadora garota, enquanto desfazia com dois dedos a artimanha sabotadora.

O paraquedista voltou a flutuar com seu instrumento e pensou: “Por que fez isso, Claudinha? Por quê?”.

E pensou que seria melhor a Aeromoça não o ter socorrido.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Desconotações - 2

touro

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O pateta patético

Tenho a impressão de que algumas pessoas confundem pateta com patético. Por isso crio este breve post de utilidade pública.

É preciso, antes de mais nada, perdoar os confusos. Numa língua em que formamos a palavra mítico a partir de mito, por que não poderíamos formar patético a partir de pateta, com a mesma derivação por sufixação?

Acontece que essas palavras na verdade não são irmãs, nem primas, nem cunhadas. São parecidas por coincidência e seus significados são consideravelmente distintos.

Patético vem do latim patheticus, originado a partir de pathos, do grego. É aquilo que produz emoção, inspira piedade. Em um filme, um personagem patético não é engraçado nem bobo: ele faz termos pena de sua pobre condição.

Pateta parece ter vindo de pato. É o bobo ou estúpido — como aquele personagem da Disney, que não quis dar um livro de presente ao Mickey, dizendo: "Ele já tem um".

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Uma tarde em 2010 — alegria alegria!

uma noite em 67

Tarde de terça, sessão de gatos pingados. Mas com um filme vibrante, intenso e muito, muito inteligente.

Primeira coisa a aplaudir: as imagens mostram as apresentações completas. Você pode saborear com calma, numa sensação de tempo real, sem videoclipagens, interpolações ou qualquer outro bicho.

Também a aplaudir: o roteiro passeia com suavidade de um assunto a outro, de uma canção a outra, de uma entrevista a outra (as da época e as recente), sem solavancos. É simplesmente delicioso.

Mais aplausos: a seleção de falas dos entrevistados, que vão do anedótico ao profundo ao revelador, com muito equilíbrio.

E quando você começa a querer pensar que “aqueles tempos é que eram bons”, suas personagens, uma a uma, vêm lhe dizer que não, não têm saudades daquilo tudo.

Afinal, se um tempo é de fervor, de ativismo, de engajamento, muitas vezes isso se deve a uma condição geral cruel, que precisa ser combatida.

Para mim, que em 67 ainda estava a 5 anos de nascer, é mais fácil sentir a nostalgia do não vivido. Hoje os tempos são outros. Provavelmente melhores!

Existe muita coisa interessante por aí, belas experiências culturais e artísticas para vivermos. A diferença é que isso não passa mais na TV. Então parece que não existe.

Uma noite em 67, filme brilhante de Renato Terra e Ricardo Calil, vale ser visto e revisto muitas vezes. Já estou esperando pelo DVD, tomara que tenha muitos extras! Por exemplo: imagens de Elis Regina interpretando “O cantador”.

E agora vou terminando, que já estou atrasado para uma passeata contra a guitarra elétrica. Até mais!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Desconotações - 1

Todo dia 6, começando hoje, uma desconotação fresquinha.

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