quarta-feira, 16 de junho de 2010

A Jabulani está arruinando a Copa do Mundo

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Não importa o jogo de cena de quem, por interesses de patrocínio, acusa ou defende a bola do mundial da África. Depois de assistir a todos os 16 jogos da primeira rodada, ficou claro que ela é realmente a culpada pelo mau desempenho dos ataques.

Faz anos que os goleiros reclamam das novas bolas lançadas a cada temporada, dizendo que elas são feitas para beneficiar os atacantes porque fazem efeitos demais. Ironicamente, agora é diferente: a bola está prejudicando os ataques.

Mesmo respeitando os padrões da FIFA, a Jabulani é de algum modo mais leve e ligeira do que a que os jogadores costumam usar. Assim, em todos os jogos são incontáveis as finalizações para cima do gol e, principalmente, os passes em que as bolas correm demais e saem sem que os atacantes possam alcançá-las.

Os gramados do Mundial são sensacionais, e isso só colabora para acelerar ainda mais a bola.

Todas as seleções estrearam, e foram marcados somente 25 gols, numa média de 1,56 gols por partida. É ridiculamente baixa. A menor média numa Copa foi a da Itália em 1990, com 2,21 gols por partida. Foi considerada tão baixa na época, que motivou o aumento da pontuação dada ao vencedor — passando de 2 para 3 pontos.

E estamos 30% abaixo daquela média!

Isso tem que ter um motivo, e não é a qualidade dos jogadores, nem as táticas. Esperava-se uma Copa com destaques ofensivos como Cristiano Ronaldo, Drogba, Messi, Robinho, além de equipes que atacam bastante, como a Holanda, a Argentina e a Espanha. E de fato vi muitos times tentando atacar, e atacando. Mas as jogadas não acontecem, porque a bola escapa o tempo todo, atrapalhando tanto os ataques quanto os contra-ataques rápidos.

A culpa também não é da “altitude”. A média de gols dos jogos nas cidades acima de 1.000 metros é até um pouco mais alta: 1,67 por jogo. A bola é ruim perto do mar ou longe dele.

A revista Placar pediu para Marcelinho Carioca testar a bola. Ele aprovou. Mas no vídeo da matéria eu só o vi chutando a bola paradinha no chão. Em condições de jogo é outra coisa. A bola é imprevisível e se mexe muito. O jogador pensa em pegar nela de um jeito, e acaba pegando de outro. (Veja os links no final.)

O blá-blá-blá de comentaristas como o Falcão, que diz que “jogadores de qualidade têm que se acostumar”, não se sustenta. O período de adaptação é curto, já foram realizados 25% dos jogos da Copa. Além disso, a adaptação necessariamente levaria a uma mudança de tipo de jogo, ou seja, as equipes teriam de fazer algo diferente daquilo que treinaram. Em consequência, cai o desempenho.

Tenho certeza de que a FIFA e a Adidas estão preocupadas com isso neste momento. Não conseguirão fabricar outra bola a tempo. E as Jabulanis da Copa já estão fabricadas e personalizadas.

O que fazer?

Agora é tarde. Trocar a bola por outra mais antiga não vai ocorrer. O que espero é que parem de palhaçada com as bolas de futebol. Quer vender? Muda o nome, muda a estampa, muda as cores. Mas não as características.

LINKS

Eriksson pede debate sobre 'Jabulani'
"Jabulani", a bola do Mundial, é mais difícil de controlar, afirma estudo
Jabulani ou como a FIFA arruinou o Mundial...
Notícias, notícias e notícias…

terça-feira, 15 de junho de 2010

A imagem diz tudo

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Os jornalistas e o gancho

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Os jornalistas são importantes.

E sua imbecilidade vai acabar estragando o mundo.

São importantes porque, de um modo ou de outro, movem a opinião pública. São holofotes que clareiam aquilo que as pessoas olharão.

Porém estão aprisionados na imbecilidade do “gancho”.

Gancho é assim: se um gênio lá do interiorzão faz uma pintura, não é notícia. Primeiro, porque jornalista não entende nada de arte. Segundo, porque não tem gancho. Mas se uma celebridade faz uma tatuagem, tem gancho e vira capa.

Jornalista não descobre mais nada. Fica sentado esperando press-release por e-mail. Se fosse hoje, o festival de Woodstock não existiria sem press-release. Ficaríamos sem notícia até da destruição de Hiroshima, se não encaminhassem um press-bomb-release para os jornalistas.

Como tem 1.000 pessoas querendo virar notícia, o jornalista então recebe 1.000 press-releases. Do alto de sua sabedoria, deve escolher o que vai e o que não vai virar notícia.

Como faz? Pensa no gancho.

Há 6 anos, minha peça “O canto de Gregório” virou notícia. Porque era boa? Nem de longe. Talvez fosse boa ou mesmo ótima, mas virou notícia porque o press-release partiu do Sesc e o diretor do espetáculo era Antunes Filho. E Antunes Filho é uma celebridade. Podem dizer que é merecido – mas é celebridade.

E por que o Antunes é celebridade? Porque começou a fazer teatro quando não havia TV no Brasil. Porque foi aclamado como diretor quando havia uma crítica teatral sólida no país. Porque dirigiu para a TV nos anos 70. Porque n celebridades da TV “começaram com Antunes Filho”. E, enfim, porque ganhou prêmios.

Não sabendo de nada, os jornalistas se prendem a prêmios. O melhor cientista. O que o jornalista entende de ciência? O Nobel de Economia, o Nobel de Medicina: o que o jornalista entende dessas coisas? Pra isso existem os prêmios: prêmios são maquininhas de fazer gancho.

O produtor de minha próxima peça vive me apresentando como “indicado ao prêmio Shell”. Está certo, o que ele vai falar? Do meu estilo? Das minhas ideias?

Por acaso “o cara que pensa isso e aquilo” é gancho que preste?

Pode até ser: se forem ideias extremistas e inconfundíveis. Por exemplo, um cara que grite clamando pela introdução da pena da morte. É preciso ter uma bandeira. A bandeira é o gancho.

Pensamento não é gancho. O raciocínio e a exposição de argumentos não são gancho.

A técnica do artista não é gancho. O faturamento da bilheteria do cinema, este sim é gancho.

Espero que os bons jornalistas me perdoem por este libelo enfático.

E espero que os novos jornalistas não se inspirem naquele cara que enterrou sua rica história de jornalismo cultural para tornar-se gigolô de celebbbridades.

E espero ainda que não me perguntem qual é o gancho para eu ter escrito este tópico.

Leia também esta surreal história de um escritor sugerindo matéria para um jornalista.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O “ceticismo”

 

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Os autoproclamados “céticos” são os fariseus da Ciência.

Eles se preocupam com uma casca, não com os sentidos mais profundos da investigação científica, da qual costumam na verdade ter uma visão equivocada.

O ceticismo fundamental não é uma escola, não é uma bandeira de pensamento. O ceticismo é um aspecto do trabalho científico, uma estratégia de investigação.

A Ciência existe para fazer descobertas importantes, não para dar corda aos preconceitos de ateus que precisam de um norte (e não, eu não sou religioso). Afinal, a essência do ceticismo é a “suspensão do juízo”, e a seita dos céticos é a primeira a crocitar juízos sobre qualquer coisa.

É por isso que o professor Marcello Truzzi escreveu, em 1987, um célebre artigo sobre esses que chamou de “pseudocéticos”. Destaco o trecho abaixo:

Na ciência, o ônus da prova recai naquele que faz a alegação, e quanto mais extraordinária for a alegação, mais pesado é o ônus da prova que se exige. O verdadeiro cético toma uma posição agnóstica, ou seja, diz que a alegação não foi provada, em vez de dizer que ela foi refutada. Afirma que aquele que fez a alegação não sustentou o ônus da prova e que a ciência deve continuar a construir o seu mapa cognitivo da realidade sem incorporar a alegação extraordinária como um "fato novo".

Uma vez que o verdadeiro cético não faz uma alegação, ele não tem nenhum ônus para provar o que quer que seja. Ele apenas continua usando as teorias estabelecidas da "ciência convencional", como de costume. Mas se um crítico afirma que há evidência para realizar uma refutação, que ele tem uma hipótese negativa — dizendo, por exemplo, que uma aparente manifestação psíquica era na verdade devido a um objeto concreto —, ele está fazendo uma alegação e, portanto, também passa a sofrer o ônus da prova.

[Tradução livre, com apoio do tradutor do Google. Vejam o original em inglês desse trecho.]

Esse trecho é muito esclarecedor para a questão. Você só precisa compreender a diferença entre as duas afirmações abaixo:

1) A teoria está errada.
2) Não foi provado que a teoria está certa.

Agora releia a citação acima!

quarta-feira, 31 de março de 2010

Quero meu celular bloqueado

Alguém me explique, por favor, por que a Anatel saiu com essa de desbloqueio obrigatório do celular e por que as pessoas estão comemorando.

Semana passada comprei meu novo celular, da Claro, bloqueado. Paguei 200 reais a menos do que pagaria pelo desbloqueado se o comprasse no Submarino, nas Americanas, etc. E olha que meu plano é pré-pago! Clientes do pós-pago podem conseguir descontos muito maiores no aparelho bloqueado da operadora.

Vá à página da Claro e veja a quantidade de aparelhos à venda, aí veja os descontos que você obtém ao comprá-los lá. Agora entre na página da Oi, essa “paladina” do desbloqueio, e veja se eles têm celulares à venda. Não têm.

Se a decisão da Anatel de fato vingar, em breve estaremos todos pagando o preço cheio dos aparelhos, sem descontos.

E não adianta tentarmos encontrar socorro nas tarifas das operadoras, todas têm promoções e acabam tendo custos equivalentes, e também seria necessário analisar a qualidade das ligações e do sinal.

Pra mim, aquela brincadeirinha da Oi é pura verdade: “quem ama bloqueia!”…

sexta-feira, 19 de março de 2010

O realce

O perigo começava. O pai estava no fundo da casa, talvez pitando cachimbo ou ainda com sono leve, e os malucos entravam pela frente, para trazer alegria aos irmãos. O novo ardia de expectativa, o mais velho coordenava a chegada das drogas com confiança e se sentindo muito preparado para o prazer.

Cada visitante tirou do bolso uma pedra brilhante, moderadamente quadrada, e a rolavam entre os dedos mostrando a beleza dos farelos que iam se descascando. O menino pensava se aquilo era de comer, de cheirar, de injetar, mas seu irmão tomou uma pedra nas mãos e começou a antegozar a alegria pelo tato.

Em instantes os irmãos já choravam, a vida terrível iria embora, a felicidade invadiria seus poros em farelos cheios de luz.

Os malucos partiram nas motocicletas, o garoto trancou o portão e voltou para a sala — a cabeça agora menos encantada. Tirou da mão do irmão a pedra que ele namorava na poltrona, e o pai apareceu, distraído.

Para choque de seu irmão, o menino ofereceu a pedra ao pai, dizendo “Coma”. O pai mordeu a paçoca e mastigou metade. Era bom, era doce, e o pai aprovou, querendo que comprassem mais desses.

sábado, 6 de março de 2010

Argumentos contra a mesada

Não tenho filhos ainda.

Quando criança, não recebia mesada – mas nunca passei nenhuma necessidade.

Meu primeiro argumento contra a mesada é que ela pode dissociar a criança do padrão de vida da família. O que aconteceria se os pais entrassem num aperto inesperado e tivessem que cortar a mesada do filho, total ou parcialmente? Isso pareceria “injusto” ao pirralho.

Além disso, permite o raciocínio: se uma mesada pode ser cortada, ela não é essencial.

Por outro lado, se os pais fizerem um esforço para manter a mesada durante o mau período, passarão uma mensagem ainda pior, confirmando na cabeça do menino a impressão de que tudo gira em torno dele e que ele está “blindado” contras as intempéries.

Acho duvidoso o argumento de que mesada “ensina independência” à criança. Isso será verdade somente se os pais, em seguida, cobrarem pela comida que ele come, pela roupa que ele veste, pela escola, pelo material escolar, pela gasolina do carro que o leva pra lá e pra cá, pela própria moradia e tudo o mais. Sem isso, a mesada é apenas uma carta branca para o supérfluo.

Sinto que não receber mesada em criança me ensinou coisas mais interessantes. Eu não tinha autonomia para comprar o que quisesse enquanto meus pais se esfalfavam sem tempo e sem condições para realizar algumas de suas próprias vontades. Os meus desejos estavam submetidos ao padrão geral da família.

Se eu queria figurinhas – o ícone do supérfluo entre as crianças –, iria consegui-las sempre que as vacas estivessem mais cheinhas, e ouviria um não diante das vacas esbeltas.

Isso transmite uma noção mais clara do que é dispensável, e afasta a criança da sedução das compras.

Outra consequência disso é ter aprendido a refletir melhor sobre o que comprar e quando: era necessário convencer meus pais de que o que eu queria era de fato algo que me “acrescentasse” de algum modo.

Embora eu possa ter uma índole natural nessa direção, acredito que tal experiência acabou por me tornar mais tolerante quanto a certas condições financeiras. Já guardei durante anos alguns desejos, sem que isso nem de perto tornasse minha vida mais “infeliz”. Uma proeza num mundo consumista e apelativo.